PALAVRORIUM

Conto — Álvaro

A presença de Álvaro rondou minha vida como um espectro persistente até sua morte, numa Quarta-feira de Cinzas de céus encobertos. A notícia me chegou como um lampejo de lucidez, um desanuviar dos pensamentos. Peguei o telefone a tocar, vi o nome de Roque estampado na tela e soube com agudeza inabalável: Álvaro está morto. A ligação foi curta, sem banalidades; o tom de Roque era quase perfunctório, e eu não quis saber de fatos nem circunstâncias. O próprio motivo já me bastava. Eu não tinha com o que me preocupar.

Encerrei a ligação, fiz a janta, trabalhei na tradução de um breve livro cujo prazo se aproximava, passeei com o cachorro pela quadra. Em nenhum momento, enquanto eu olhava para o céu e esperava o sabor de petricor me atingir, senti aquele peso na barriga que vinha esperando. O rosto de Álvaro me chegava com clareza à mente, mas já não suscitava nenhuma emoção: nem a exultação delirante que me acometeu em nossos primeiros meses juntos, tampouco o pavor mascarado de ansiedade que me definiu nos últimos.

Teodoro chegou em casa no meio da tarde; trabalhava, mesmo sendo feriado, pois era entregador. Conversamos sobre amenidades, discutimos o dia, mas eu falhei em contar da morte de Álvaro. Não de propósito — como se a ligação de Roque tivesse acontecido dias, semanas antes, o fato simplesmente me escapou, escorreu pelas minúcias do dia, e me vi absorvido pelo ritmo cálido do crepúsculo. Tomamos banho juntos; fizemos amor antes da janta, antes que ele tivesse que sair de novo, para as fainas da noite. Despedimo-nos com sorrisos trocados, e na solidão da chuva me dediquei a traduzir um trecho mais trabalhoso que ocuparia minha cabeça por horas, antes que o sono me tomasse.

Tiveram de se passar duas semanas para que eu voltasse a pensar em Álvaro. Em retrospecto, o fato me surpreendeu, pois vivi pela boa parte de três anos tentando extrair-lhe o rosto do olho da minha mente, sem muito sucesso. Como um zahir, a voz grave voltava a me assombrar com infalível candura, suspiros que em carne já não ouvia há muito e que mesmo assim me rendiam noites a fio de sonhos intranquilos. Nas últimas, porém, bem dormi. O trabalho e os detalhes dos dias me exauriam a mente enquanto Teodoro me exauria o corpo, a notícia enterrada me aliviando um peso no peito que jamais parecia haver percebido.

Quando me toquei da gafe de tê-lo esquecido assim (além de não ter relatado a morte dele a Teodoro, que provavelmente não teria mais do que duas palavras de comentário para responder), me esforcei para rememorar seu rosto: as poucas rugas, as tranças presas à cabeça, aquele ar sempre soturno com um quê de deboche. Disso, consegui me lembrar, mas o resto foi se perdendo entre verdades e falsidades, e, quando não soube mais distinguir meus excessos pessoais, abandonei a tarefa.

Passaram-se outras duas semanas até que recebi uma visita de Roque. Apareceu no meu apartamento sem aviso no sábado, com o rosto cansado, os cabelos por pentear, uma expressão que quase me levou a perguntar: morreu você também? Não disse muita coisa; parecia transtornado, querendo sair logo — olhava para os lados como se esperasse uma emboscada, como se estivesse em território inimigo. Só consegui extrair que deveria ir ao velho apartamento de Álvaro o quanto antes, que o falecido me deixara algo a recuperar e que eu saberia do que se tratava melhor assim que passasse do batente da porta. Mais do que isso Roque não sabia, e nessa ignorância ele me deixou ao sair do apartamento, com a pasta de couro sempre na mão, o chapéu anacrônico ocultando o suor na testa.

Não vou mentir: tudo me atiçava, do comportamento escuso à perspectiva de revisitar aquele velho apartamento no centro da cidade. Lembro-me bem: o prédio semiabandonado de três andares, o cheiro de pinho no corredor, a luz amarelada do elevador, a porta rangente que levava santuário interno de Álvaro. Fiquei revirando-o na cabeça, explorando mentalmente seus aposentos, e o próprio gesto de fazê-lo me trouxe uma apreensão que no começo me refreou na vontade de visitá-lo. Deixei a questão marinando na cabeça até de noite, quando Teodoro chegou. Depois do banho, enquanto comentávamos os acontecimentos do dia a laranjadas à mesa, contei-lhe da visita de Roque, o que me levou a contar (e aí então me lembrei de novo do que já tinha me lembrado antes) da morte de Álvaro. Ele se limitou a responder:

— Morreu, ele? Aquele Álvaro? Morreu mesmo? Nossa.

— Pois é.

— Bem-feito pra ele.

Foi como pensei que faria. Não se interessava em Álvaro mais do que ele representava em relação a quem eu era. E, portanto, apesar de não apresentar nenhuma tristeza, tampouco me pareceu jubiloso. Era uma indiferença não calculada, porque Teodoro não tinha esse feitio — a ele simplesmente cabia ficar longe das coisas que não lhe diziam respeito, e assim vivia os seus dias. Por isso, não se opôs a que eu fosse ao apartamento de Álvaro e descobrir o que me aguardava lá dentro, e inclusive se propôs a ir junto. À noite, dormimos sem tocar mais no assunto, mas, sentindo a respiração calma dele ao meu lado, consegui adormecer sem voltar ao sono intranquilo. Esperamos que a noite nos levasse juntos, sem que o dia nos encontrasse separados.

Foram-se mais dois dias até que eu reunisse a coragem, mas lá cheguei e desci da garupa da moto de Teodoro como uma caixa de pizza. Ele estacionou a moto e desceu, olhando meio sem ver, disposto a caminhar até o saguão, quando acendeu um cigarro e deu meia-volta, foi para o meio-fio. Já esperando este desenlace, subi aqueles lances de escada, abri mão daquele elevador antigo, e me embrenhei no corredor que já me ocupara tantas noites em memórias mal-lembradas.

Como se à minha espera, a porta do apartamento de Álvaro (no fim do corredor, um pouquinho à direita, perto da samambaia) já estava entreaberta, a madeira escura abrindo alas para o vão negro. Cabe a metáfora da boca aberta, mas não foi o que me pareceu: mais lembrava uma porta, seu único diferencial um cheiro ao mesmo tempo característico e irreconhecível.

Acho que, por algum motivo, esperava encontrar seu corpo lá dentro, já em estado avançado de putrefação, estirado no chão com uma taça de vidro quebrada ao lado, o uísque jogado pelas paredes. Foi então que percebi que ainda não sabia como Álvaro perdera a vida. Talvez sentado à poltrona, redigindo um ensaio que lhe tirara a vida, talvez ao computador amarelado, terminando um trabalho como os meus. Enquanto abria a porta, talvez eu sentisse meu coração a mil, disparando pelos cantos do peito, esperando que ao cheio de Álvaro vivo se misturasse o de Álvaro morto, e já me imaginava vomitando no chão da sala, desmaiando, pedindo socorro a Teodoro pela janela, diria: Roque me enganou; matou Álvaro (como eu sei que ele sempre quis) e me mandou para cá para descobrir o corpo; talvez me prendam pelo homicídio, até que pensei, não, é absurdo, ele morreu há semanas, o que estaria fazendo aqui ainda, e mesmo assim de porta aberta? Alguém já teria percebido. E, realmente, a sala estava vazia, apenas o sofá, a poltrona, e o clássico contrabaixo escorado perto da passagem para o corredor, com um misto de alívio e ressentimento borbulhando na boca do meu estômago.

Restava uma leve camada de poeira engolindo os móveis e os anos, e pelas janelas também entreabertas entrava a pouca luz que me permitia divisar os recantos daquele apartamento. Não que precisasse: saberia me deslocar por lá seguindo os rastros dos cheiros, o som de meus passos em cada tábua do assoalho velho. O apartamento de Álvaro foi como meu, e mesmo agora consigo vê-lo no olho da mente, das paredes bem-cuidadas aos móveis malcuidados, posso me deslocar por lá sem sair do lugar, pelo corredor que leva aos dois quartos e ao banheiro apertado, ou cruzando a sala rumo à cozinha com cheiro de avó, quase nunca usada, ou ficando mesmo por ali, deitando-me no tapete que cobria as madeiras barulhosas, sentindo os felpos na nuca. Então me perguntei se era isso o que Álvaro me legara e que Roque me passara: naquela penumbra de começo de tarde, gravar a fogo na memória tudo o que ali se foi e ali se passou, pois não me restava a memória da despedida. Sem saber o que pensar, ousei desbravar o corredor.

Queira o leitor me perdoar a narrativa opaca: pois a porta do banheiro dava nos quartos e a porta dos quartos dava na cozinha. Hesitei, mas atravessei um quarto rumo a outro, e os dois eram o escritório, com o computador amarelado e a poltrona empoeirada, e na saída fui dar na cozinha, que continuava intocada. Atravessei de um cômodo a outro, passando pelas portas e voltando, divisando sempre lugares diferentes: fui do escritório à sala, então ao banheiro e daí de volta à sala, que dava na cozinha, para aí desembocar no corredor (e senti uma ânsia de sair correndo, mas relutei), para em seguida voltar ao escritório.

Quando percebi que jamais dava no quarto, surgiu em mim a plena certeza de que era lá que algo me esperava: talvez Álvaro (talvez Álvaro morto) e que eu não podia sair de lá sem ver aquela cama, sem ver o guarda-roupa enorme, sem ver, talvez, quiçá, pode ser, um baú sobre a cama, nele a chave para todas as minhas angústias, tudo o que Álvaro me deu e tirou de mim, tudo o que ele representava para mim e tudo o que ele seria ainda, vivo e morto, na minha cabeça. Então, pensei em quem afinal era Álvaro: seria muito óbvio que fosse um amante, seria igualmente clichê que fosse meu pai — quisera eu fosse eu, o meu nome, um espelho distorcido no qual vejo o rosto de outro. Aí batia um desespero: tentasse eu como quisesse colocar Álvaro num papel, alocá-lo numa função decisiva em minha vida, era só começar que ele (e suas funções, e seus rostos, e suas imagens) se esvaía e escorria pelos meus dedos como a areia da praia. Álvaro era todas essas coisas em vontade e em potência, mas não era nada — era um objeto dentro dos demais, um sujeito que poderia ser todos, bastasse eu virar o rosto e ignorar as incongruências. Ele era tudo, mas ao mesmo tempo, não era nada — e, em minha cabeça, era deus e diabo, anjo e tentador. Até que eu fincasse o pé e o definisse se falha, ele me eludiria.

Quem era Álvaro?, e na minha mente a certeza de que descobriria ao entrar no quarto. Por isso me embrenhei pelo seu labirinto, seguindo a passagem de um cômodo pra outro com as mãos, deixando um fio de cabelo por cômodo, marcando a divisória das portas, pensando em Teodoro me esperando lá fora (“pra que a demora?”), como em um ritual metódico e banal, um puro método de loucura, sem deixar que a confusão e a angústia me abatessem, porque a cada vez que eu trocava de cômodo, vinham relances de memória: Álvaro tocando o contrabaixo, Álvaro conversando com Olívia e Conrado, Álvaro olhando para Roque com um sorriso travesso no rosto, Álvaro tomando aquele copo de uísque (era gim, era chá?) escorado na janela, os óculos meio caídos na cara, como se esperasse um vento levá-lo embora do terceiro andar e pela noite a voar. Logo eu conseguia vê-lo um pouco melhor na cozinha, despejando café da garrafa térmica; logo, conseguia vê-lo no escritório, com um volume de Barthes no colo e uma caneca sobre o computador; e então eu o via na sala, estirado no sofá, com a cabeça no colo de Olívia, que lhe cantarolava uma melodia obcecada em voz rouca, imagens das mais fugazes, que voltavam e se alastravam como fogo em mato seco e me diziam que Álvaro não tinha como estar morto se estava ali, na minha frente, em cada lugar deste apartamento, na verdade em cada centímetro, impregnando-o como aquele cheiro de madeira (talvez Álvaro fosse o cheiro de madeira, talvez fosse o sofá, talvez fosse ele mesmo o apartamento). Lá estava ela, a angústia que eu sentia nas últimas semanas, antes de fechar a porta do apartamento para nunca mais voltar. E foi quando ela me chegou ao peito e eu quis abafá-lo com um soluço, que eu cheguei ao quarto, e o ar saiu de mim como se despressurizado, pois a imagem que me escapava lá estava.

Sobre a cama (os lençóis bem-dobrados, como se ele tivesse feito a cama e morrido), deitado como se dormisse, estava o contrabaixo envernizado, reluzindo suave à penumbra da tarde. Nada barulhava, mas eu sentia uma leve vibração no quarto, como se o ar estivesse em estática, repleto de expectativa, e me aproximei como se andasse no mar, cada passo mais pesado que o anterior. Hesitei em tocar o baixo, e, quando o fiz, nada aconteceu. Era o instrumento de Álvaro, o mesmo que passou meses no botequim onde costumava se arriscar no jazz, deixado lá pela dificuldade de tirar e levar a toda ocasião. Até que acumulou tempo, desfez-se, voltou-se. Ao sentir sua lisura sob meus dedos, senti a música que dele tirávamos, senti a superfície resistente, como se uma prova sólida da materialidade do apartamento, e senti o cheiro de madeira (de novo, talvez Álvaro fosse a madeira), e não havia poeira acumulada ali como no resto do apartamento. Estava lustrado como se novo.

Com dificuldade, coloquei o contrabaixo no chão e o toquei, e a cada puxada das cordas eu me sentia alguém que já não sou mais, alguém que fui e que, talvez, muito talvez, pudesse, se não ser Álvaro, estar com ele mais uma vez. Talvez aqueles segundos pudessem se estender em anos, e eu jamais saísse daquele labirinto todo meu e que apenas os sons gravíssimos do baixo pudessem fazer desmoronar, como o desmanchava a própria presença daquele Álvaro no toque dos meus dedos. E, quando terminei de tocar, por aqueles segundos que poderiam muito bem ter sido os primeiros, restou apenas o silêncio banal, sem vibração nem ruídos, até que ouvi os sons lá fora, das buzinas, do burburinho e dos pássaros, e soube que não me restava mais nada a fazer ali.

Assenti para Teodoro ao descer do elevador, e talvez eu sorrisse. O que lá havia não me dizia mais respeito, e, na verdade, não voltei com nenhum presente, herança ou suvenir: ao contrário, sinto que deixei mais do que levei, e no deitar na cama à noite eu soube, com agudeza inabalável, que Álvaro estava morto.

Por isso, quando ele me ligou dois meses depois para me contar da livraria que acabava de fundar no Largo do Cavalo (e claro que me diria, pois sempre perambulávamos pelos mesmos círculos), eu me limitei a dizer que não falava com os mortos e desliguei. Já basta disso.

A.C., 2020

602600slsdl Die Bassgeige (1908), Ernst Stöhr

#conto #literatura #minha ficção