Leituras do lótus (1): visão geral, edição e upāya
Com o passar do tempo, eu percebi que era uma empreitada fútil prever no que eu me dedicaria ao longo do ano. Quem me conhece sabe que na última virada dei de querer ler mais calhamaços em 2026, em grande parte para desovar os principais leviatãs do meu fundo de catálogo aqui em casa, os monstrengos que ocupam aquele espaço obsceno na instante.1 Até comprei um exemplar físico de Infinite Jest. Mal sabia eu (ou sabia e ignorei, imaginando ter mais força de vontade do que se revelou verdadeiro) que meus interesses são fluidos como todo mais na existência, e aproveito um pouco dessa noção firme de mono no aware para deixar claro que, desde março, voltei a querer me integrar um pouco mais na minha fé budista e voltei a correr atrás de livros sobre o assunto. Deixei os calhamaços de ficção para depois.2
Depois de empreitadas com livros mais curtos — em março li o Tannisho e um compilado do pensamento de Shinran, do meu budismo Shin, além de alguns breves sutras Zen — resolvi ir atrás de um que sempre me interessou devido à sua influência potente pelo budismo do leste asiático, em especial nas escolas japonesas: o Sutra do Lótus Branco do Dharma Sublime, ou Sutra do Lótus, para os íntimos. Trata-se do principal sutra (as escrituras budistas, para quem não sabe) usado pela escola Tendai japonesa para estabelecer sua doutrina, embora também seja importante para outras escolas do país, como Nichiren e Zen. Além do mais, foi na escola Tendai que surgiram as figurinhas que criaram outras escolas influentes no período Kamakura, como os monges Nichiren, Honen (Jōdo Shu) e Shinran (Jōdo Shinshu, ou budismo Shin). Reza a lenda que o próprio Príncipe Shotoku, o primeiro grande expoente do budismo no Japão, lia e escrevia comentários a respeito do Sutra de Lótus. Ele é dos mais famosos por lá mesmo, e como eu ando querendo entender qual é a do Tendai no geral, resolvi dar uma fuçada.

Passei o último mês lendo o Sutra do Lótus. Não é um livro gigante — a edição que eu peguei fecha em 330 páginas —, mas tanto o contexto no qual ele surgiu quanto as inovações que estabelece na doutrina deixam óbvio o porquê dessa influência. E resolvi3 vir falar um pouco de como foi ler, porque, bem, por que não? Nada de exegese, porque existem vários livros dedicados justamente a isso e duvido que eu, leigo, seria capaz de esgotar qualquer discussão que seja. É mais para vermos trechos bacanas, impressões, comentários e o escambau.
Pretendo fazer isso em dois ou três posts, porque tem muita coisa a falar sobre o Sutra do Lótus, então vou aproveitar esse primeiro para dar um apanhadão geral do que ele é, como abordei a leitura e um começo do, bem, assunto dele.
O que é o Sutra do Lótus?
Tem-se o Sutra do Lótus como um texto fundacional do budismo Mahayana. E o que é o budismo Mahayana? Em termos gerais, é uma visão budista em que você, o praticante, não quer se limitar a atingir um nirvana solitário, libertando-se das amarras do samsara e pronto. Este é o caminho dos arhat, presente nos textos da atual tradição Theravada, outra corrente descendente do budismo primitivo, por assim dizer. Já para os Mahayana o que vale é o caminho do bodhisattva, em que você faz o voto de se tornar um buda para poder salvar e iluminar também todos os outros seres conscientes, colocando uma nova ênfase na virtude da compaixão e altruísmo.
Até pouco tempo atrás, acreditava-se em um grande cisma entre os praticantes Mahayana e não Mahayana nos séculos de transição para a era comum, mas pesquisas recentes parecem indicar que foi um processo gradual, com monges Mahayana convivendo com suas contrapartes nos mesmos mosteiros, compartilhando seus preceitos, como um movimento relativamente marginal em grupos de especialistas em sutra, que também buscavam sua legitimidade doutrinária e escritural.
É nesse contexto que surge o Sutra do Lótus, que coloca esse tipo de tensão em evidência com certas revoluções doutrinárias que vão afetar várias escolas budistas do leste asiático e gerar uma tradição própria. Trata-se de um texto composto em camadas, com alguns trechos que podem ter vindo como textos independentes e depois incorporados ao sutra principal. É um texto que afirma o Mahayana e por isso se estabelece em um cânone diferenciado das tradições que não o são.4
Formato e tradução
Estruturalmente, o livro é por sua natureza bem repetitivo, como todos os sutras são — por sua natureza como transmissão originalmente oral, muitas vezes se compunham trechos em busca de uma primazia mnemônica que reforça certas fórmulas recorrentes. Começamos com trechos em prosa bem explicativos, em geral seguidos por versos que sintetizam os mesmos ensinamentos. Alguns estudos indicam que os versos foram escritos primeiro, e depois a prosa foi deixada para complementar e esclarecer. Curiosamente, certas traduções mais antigas abriam mão dos versos, mas em geral todas as traduções atuais contam com ambas as partes do sutra.
Apesar disso, tive primeiro que escolher qual tradução ler. E isso por si só já é uma questão, porque existem diferentes versões da transmissão do texto, e cada original de uma tradução distinta tem diferenças pontuais entre si. Então, temos que escolher uma versão de original e nos pautarmos daí. Mas não é só uma questão puramente linguística: a compilação do sutra é diferente em diferentes versões, em diferentes momentos de sua tradição ao longo do tempo, com mais ou menos capítulos.
Meu primeiro impulso foi pegar a do projeto 84000, uma iniciativa muito bacana de traduzir para o inglês todo o cânone do budismo tibetano. Afinal, e-book grátis, todo bonitinho no Kindle. Só que depois fui descobrir que as tradições japonesas são inspiradas na outra tradição de traduções, a baseada na de Kumārajīva para o chinês. Então busquei uma dessas. A diferença é a separação ou não de certos capítulos; alguns trechos são condensados ou expandidos conforme o contexto. Podendo ter acesso a uma que se alinha melhor com o que eu pretendo, que mal faz?
Enfim, me recomendaram a de Burton Watson, mas não consegui acesso fácil a ela. Acabei me firmando na tradução de Tsugunari Kubo e Akira Yuyama, publicado pela BDK English Tripitaka, uma iniciativa japonesa, ou seja, bem alinhada com o que eu queria. E, apesar de venderem exemplares físicos, tem PDF grátis.

A edição da BDK opta por uma abordagem mais estrita, focada menos em um público geral e, acredito, mais especializada de estudioso. Não é exatamente o meu caso, mas é uma que interessa. Até por questão de não traduzir o sânscrito dos nomes de certos bodhisattvas, o que facilita identificá-los em outros contextos, como por exemplo:
They were Mañjuśrī, Avalokiteśvara, Mahāsthāmaprāpta, Nityodyukta, Anikṣipta dhura, Ratnapāni, Bhaiṣajyarāja, Pradānaśūra, Ratnacandra, Candraprabha, Pūrṇa candra, Mahāvikramin, Anantavikramin, Trailokyavikrama, Bhadraāla, Maitreya, Ratnākara, and Susāthavāha. There were altogether eighty thousand such bodhisattva mahāsattvas.
Em relação à de Burton Watson (cujo começo achei em PDF depois):
Their names were Bodhisattva Manjushri, Bodhisattva Perceiver of the World’s Sounds, Bodhisattva Gainer of Great Authority, Bodhisattva Constant Exertion, Bodhisattva Neyer Resting, Bodhisattva Jeweled Palm, Bodhisattva Medicine King, Bodhisattva Brave Donor, Bodhisattva Jeweled Moon, Bodhisattva Moonlight, Bodhisattva Full Moon, Bodhisattva Great Strength, Bodhisattva Immeasurable Strength, Bodhisattva Transcending the Threefold World, Bodhisattva Bhadrapala, Bodhisattva Maitreya, Bodhisattva Jeweled Accumulation, and Bodhisattva Guiding Leader. Bodhisattvas and mahasattvas such as these numbering eighty thousand were in attendance.
Pelo que passei os olhos, a do BDK era bem a que eu procurava, e já tive mesmo experiência com outras publicações deles (outro sutra cuja edição física da BDK tenho aqui em casa), então fui dentro sem nem olhar para trás.
E é aí que eu comecei a entender o porquê daquela influência toda.
Um só veículo
O budismo tem o conceito de upāya, ou "meios expedientes": o dharma se adapta para o ouvinte. A ideia de que o Buda adaptava seus ensinamentos conforme a capacidade do ouvinte está presente já nos textos pali mais antigos, do budismo inicial. Ele é descrito consistentemente como um professor habilidoso que ajusta o dharma ao interlocutor — ensinamentos diferentes para monges, leigos, pessoas em sofrimento agudo, filósofos. Isso é upāya num sentido básico.

Logo em seus primeiros momentos, após uma introdução que reforça como esse sutra é importante, é radicalizar esse conceito: não é mais só "o Buda simplificou o ensinamento para esse discípulo específico" — é "todos os ensinamentos anteriores, incluindo o caminho do arhat inteiro, foram um expediente provisório para audiências que não estavam prontas para a verdade completa". Como eu falei antes, para outras escolas o fim definitivo do caminho era a extinção solitária, o nirvana que desamarra você do samsara. O Sutra do Lótus reenquadra esse contexto: na verdade, todos os outros caminhos são apenas parte do trajeto rumo ao caminho ideal do bodhisattva: a iluminação completa e perfeita de um buda, para que cada discípulo possa pregar o dharma e salvar todos os outros seres conscientes em todo o cosmo multiversal. Os "três veículos" que então existiam (o dos arhat, o dos pratyeka-buddhas, que é quem alcança iluminação sem depender de um mestre e não transmite o caminho, e o dos bodhisattvas) colapsam em um único fim, uma única verdade: o caminho do bodhisattva é o caminho, e todo o ensinamento budista anterior era apenas um expediente para preparar seus discípulos para isso.
Isso recontextualiza toda a tradição anterior em uma espécie de polêmica, instaurando hierarquicamente o Mahayana como o topo da cadeia e o caminho definitivo. O Buda diz que nem todos estarão preparados para aceitar esse ensinamento, pois ele é complexo e possivelmente perturbador para os que não estão preparados. E, de fato, assim que ele o explica no sutra, cinco mil dos monges, freiras e leigos no público se levantam e vão embora. Pois então o Buda deixa claro que todos os budas em todos os mundos têm como seu objetivo esse e só esse: usar os meios expedientes para preparar seus discípulos para atingir a mais perfeita iluminação e encontrar o valor do Veículo Uno, do qual o Sutra do Lótus é a expressão mais perfeita.5 Em um sentido metatextual, isso é uma clara percepção de que a mensagem do sutra seria polêmica entre a comunidade monástica, o que de fato foi.
Por outro lado, também é uma mensagem de esperança: o Buda passa vários dos capítulos usando poderes transcendentais e seu conhecimento do passado e do futuro para prever quando e como cada um de seus discípulos mais famosos alcançarão a perfeita iluminação:
O Śāriputra! In the future after immeasurable, limitless, and inconceivable kalpas, you will have paid homage to thousands of myriads of koṭis of buddhas, preserved the True Dharma, and mastered the path practiced by the bodhisattvas. You will become a buddha called Padmaprabha, a Tathāgata, Arhat, Completely Enlightened, Perfect in Knowledge and Conduct, Well-Departed, Knower of the World, Unsurpassed, Tamer of Humans, Teacher of Devas and Humans, Buddha, Bhagavat. Your land will be called Viraja. Its earth will be level and pure, ornamented, peaceful, and rich. The devas and humans will prosper. The earth will be made of lapis lazuli with a well-planned network of roads like a chessboard bordered with golden cords. Rows of seven-jeweled trees, which are always full of flowers and fruits, will line the borders of these roads. The Tathāgata Padmaprabha will also lead and inspire sentient beings by means of the three vehicles
Ou seja: segundo o sutra, todos eventualmente se tornarão budas, e o Buda sabia quem, quando e onde. O reforço que se dá (são vários, vários budas que ele prevê) deixa clara uma mensagem de iluminação universal: cada um de nós tem o potencial de chegar ao perfeito despertar da budeidade, o que até então não era uma doutrina muito ampla dentro da comunidade budista, embora tenha-se tornado mais nos séculos seguintes.
A doutrina do Veículo Único é o foco principal da primeira parte do sutra, mas também é um fio condutor que informa todo o sutra e seus desdobramentos: um dos principais eixos que estabelecem seu ensinamento e que influenciaria o pensamento Mahayana no futuro. Isso se manifesta posteriormente em narrativas fundamentais do ensinamento, como a parábola da casa em chamas e os três veículos e a história de Devadatta e da filha do rei naga, que imagino poder falar mais posteriormente.
Mas, como esse post já está bem longo, devo deixar para um post posterior falar mais a fundo do que vem depois. Talvez com como ele influenciou as escolas que levam o Sutra do Lótus como o ensinamento fundamental. Talvez como engendrou toda uma tradição de sacralização do próprio objeto do sutra como digno de proteção e veneração. Vocês sabiam que copiar, explicar, recitar e memorizar o Sutra do Lótus já é tido como incrivelmente meritório e conta como uma penca de oferendas?
Ou seja, essa minha publicação aqui também é prática. 😅
E em parte para jogar Limbus Company, que só vou curtir se souber toda a história pregressa de cada personagem animificado de clássico. Pelo menos deu para ler Wuthering Heights!↩
Desculpe, Moby Dick. Desculpe, Don Quijote e Infinite Jest. E principalmente, por mais que não seja ficção, desculpe, Gödel Escher Bach. Juro que volto para vocês daqui a pouco.↩
Verdade seja dita, eu nem sei se tem público um post falando de um sutra específico de uma tradição específica quando a maior parte dos meus amigos e colegas nem liga ou entende muito de budismo, mas como eu recebi mais de 1 like nesse tuíte em que falei que ia fazer esse post, agora já não tenho mais escolha. Vou fazer o possível.↩
Vale lembrar que no budismo a situação de cânones é um pouco distinta da relação a que estamos acostumados entre cânone e apócrifa. O budismo tem a tendência geral de categorizar, em vez de excluir. Algo como "esse sutra é para uma audiência diferente, num nível diferente de capacidade espiritual". O Buda famosamente adaptava seu ensinamento conforme a capacidade do público ou do discípulo. Além disso, como nenhuma escola budista tem acesso ao que o Buda histórico de fato disse e todos os sutras foram colocados por escrito séculos depois de sua morte, via de regra as escolas não se acusam de falsidade, uma faca de dois gumes, mesmo que o cânone de uma pareça pisar nos calos da doutrina da outra.↩
Como diz James Shields em seu artigo para a Bucknell University, p. 375.↩