PALAVRORIUM

Terminei de ler: Ryōgen and Mount Hiei

Quem me conhece sabe1 que eu há estou há pelo menos um ano tentando escrever um romance ambientado em uma versão ficcional do complexo monástico Enryakuji. Ou talvez não saiba, porque eu só falei disso duas vezes com uns dias de diferença no BlueSky. De todo modo, foi esse o contexto que me fez pegar para ler o livro Ryōgen and Mount Hiei: Japanese Tendai in the Tenth Century, porque, não fosse isso, é um livro para lá de nichado para um aleatório qualquer no Brasil dar uma olhada.

O fundamental primeiro: o Enryakuji2 é o templo/mosteiro que funciona como a sede, local de origem e quartel-general da escola budista japonesa Tendai. Fundada pelo monge Saichō no século IX, ela foi situada no famoso Monte Hiei, nas cercanias de Heian-kyō (a Quioto moderna), então a capital japonesa. O que começou como um templo modesto e ideal para o isolamento cresceu ao longo dos séculos até que, ao fim do período Heian (794–1185), os monges do Monte Hiei são uma multidão, e a escola Tendai exerce tremenda influência sobre o cenário político e espiritual do Japão, convenientemente posicionada com sua sede próxima da capital. Os monges "da montanha" são figuras entram inclusive em embates com os clãs de samurai nascentes do período, fazem protestos contra decisões da corte, são bem representados nas figuras de monges-guerreiros da época, por aí vai.

Dito isso, o projeto de romance em que eu ando trabalhando há tempos tem boa parte de seu ato inicial ambientado numa versão ficcional do Enryakuji, mas é difícil encontrar por aqui material sobre o funcionamento do Tendai, das instituições monásticas e grande elenco. Foi aí que me apareceu Ryōgen and Mount Hiei. Por que não arriscar, afinal? Já conhecia o Paul Groner de nome: um autor consolidado no estudo do Tendai, responsável por uma biografia de referência de seu fundador.

Comprei e li, enfim. Livrão!

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Ryōgen foi o 18º zasu da escola Tendai e a governou por algumas décadas no século X. O livro explora vários temas relevantes à história do Tendai e de suas instituições nesse ponto fulcral: o mandato de Ryōgen foi no qual ocorreu a transição do pessoal do Monte Hiei de escola marginal para um dos principais agentes políticos-espirituais do Japão do período Heian. Nesse período também ocorreram várias reviravoltas que agravaram certas tendências que já se desenhavam no período: fortalecimento do faccionalismo tanto na corte quanto na montanha, o fenômeno dos monges-guerreiros e relações mais estritas entre o establishment nobre e o monástico. O século X é o grande momento para um livro destrinchando essas relações, e Groner faz um excelente trabalho ao longo das mais ou menos 350 páginas do corpo textual3.


O bom de um tipo de obra assim é nos dar uma noção mais aguçada do tipo de funcionamento dessas instituições. De fora, é fácil enxergar um corpo religioso vultoso assim como uma força monolítica, porque as vemos apenas em contraste contra possíveis adversários ou agentes externos. O costume é, por exemplo, pensar no Tendai em relação aos seus grandes rivais no período Heian (as escolas Shingon e Hossō, por exemplo) ou aos que surgiram de seu berço (como as escolas Nichiren e Terra Pura). Ou mesmo pensar nos monges da montanha em relação a suas desavenças com os clãs de guerreiros e pactos com as famílias nobres.

No entanto, uma breve olhada por esse livro nos mostra que o faccionalismo entre os próprios monges da monhtanha era um problema notável: lutas por poder, proeminência e legitimidade dentro do complexo monástico geravam linhagens distintas de monges que inclusive se posicionavam em centros de poder distantes dentro do próprio complexo. Daí as construções a leste da montanha e seus respectivos salões, santuários e bibliotecas ficavam sob controle de uma ou outra linhagem, e mesmo o zasu não tinha controle total e monolítico sobre facções adversárias nominalmente na mesma escola.

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O próprio Ryōgen quase não pôde ser ordenado porque as ordenações eram patrocinadas por diferentes mestres de diferentes linhagens, parte da complexa burocraia que envolvia o reconhecimento formal dos monges, já que todo o corpo religioso era em grande parte mediado e condicionado por ministérios específicos da corte imperial. Como Ryōgen, ainda noviço, perdeu o mestre cedo, ele teve que se virar e inclusive conseguir patrocínio de outra escola para conseguir se firmar como monge, a partir de contatos que tinha dentro da corte. Isso já dá uma ideia de como esse mundinho era cheio de nuances e burocracias e alinhamentos internos, com vários agentes religiosos e seculares vivendo em uma espécie de simbiose formal.

Tudo isso me lembrou de quando li, também, Altíssima pobreza, do Giorgio Agamben. Embora ele tratasse mais sobre a formação das regras monásticas das ordens cristãs, a verdade é que o assunto monge no geral acaba sendo bastante ignorado ou idealizado pelo leigo comum. As instituições monásticas do mundo todo ao longo de sua história são fascinantes por essa relação entre o poder e a piedade, porque, embora fiquemos cientes das ocorrências de certo aspecto venial e corrupto dos detentores de poder em todas as instituições, é reducionista adotar aquela visão (ao estilo Igreja Do Mal Nos Videogames) de que também era tudo uma questão secularizada de sede de poder e pronto. Sem dúvida a presença de filhos "secundários" da nobreza no clero ocasiona o surgimento de um viés político-material para essas instituições4, mas em todos os casos vemos também exemplos de erudição e piedade que marcam o pensamento religioso da época. Um dos exemplos dados aqui é Genshin, um dos pupilos de Ryōgen, cuja extensa obra marcou época no período Heian e cujo pensamento sobre a Terra Pura inspiraria e fundamentaria as escolas posteriores.

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Por outro lado, um dos principais motivos da aproximação maior entre a nobreza e o Tendai (e outras escolas budistas, como o Shingon) foi a primazia desses monges em rituais esotéricos, que instigavam uma relação simbiótica fundamentada na execução de ditos rituais para fins práticos. Seja para garantir que uma gravidez dê certo, para gerar um sexo específico de filho, para curar uma doença, para resguardar a prosperidade da nação, os nobres muitas vezes encomendavam rituais de monges específicos e atuavam como seus mecenas. Ryōgen ganhou fama primeiro por sua aptidão retórica5, mas o que selou seu destino e sua ascensão por entre os quadros da escola Tendai foi a eficiência de seus rituais. Foi assim que ganhou o patronato do regente imperial da época, ganhou terras para a escola, prestígio e renome e posteriormente indicações dentro do ministério dos ofícios monásticos na corte. Por isso mesmo, esses rituais eram conhecimento secreto protegido por linhagens específicas de mestres dentro da escola: acesso a eles propiciava ascensão como uma tecnologia mágica cobiçada pela nobreza. Monges, assim, poderiam virar os "magos da corte" de facções específicas da corte, atrelar seu destino a essas casas e subir de vida.


O livro é todo fundamentado nesses três eixos: faccionalismo dentro do Tendai, a relação entre corte e mosteiro e o crescimento do uso de rituais esotéricos. Isso tudo propiciou o crescimento do Tendai, alavancou a carreira de Ryōgen e, no geral, são fenômenos intrinsecamente ligados: o faccionalismo surge também a partir da exclusividade das linhagens esotéricas e a disputa pelo conhecimento secreto, que por sua vez é desejado pelos nobres e gera essa relação mais íntima entre o establishment budista e o cortesão. Ryōgen surge bem nesse momento e aproveita bem esse momento para se consolidar como líder do Tendai, e um incêndio que destrói vários edifícios do Enryakuji pouco depois do início de seu mandato lhe dá a oportunidade de fazer amplas reformas físicas e institucionais dentro da escola, deixando uma marca que é reconhecida até hoje.

A única parte do livro que me pareceu fora de lugar foi o último capítulo, que é um apanhadão sobre a situação das freiras e sua respectiva ordenação no establishment japonês medieval. Groner justifica falando que esse capítulo foi meio que pensado para justificar e explicar a ausência de mulheres de porte na trajetória de Ryōgen e do Tendai. O capítulo se alonga por um bom tempo sobre como funcionava ou devia funcionar a ordenação de mulheres, que papel elas exerciam ou não no mundo espiritual. E, fora alguns casos mais fortes nos períodos anteriores da história japonesa, a resposta é: muito pouco.

Na trajetória de Ryōgen, fora sua mãe, não havia muita presença feminina e levada a sério entre as escolas budistas estabelecidas. Inclusive, a presença de mulheres era vedada no Monte Hiei até o século XIX, após a restauração Meiji, mais de um milênio depois de Ryōgen. Pareceu um pouco que o autor ficou meio sem graça com a ausência de mulheres no corpo principal do texto e colocou esse adendo para dedicar um pouco de espaço no livro a falar desse assunto, mas pareceu meio colado sem muita conjugação com o resto dos temas da obra, já que mal aborda nem Ryōgen, nem Tendai, nem o século X. Mas as informações são bem úteis, de toda forma (para meu uso pessoal pelo menos, já que há uma breve discussão sobre ordenações particulares).

No geral, é um livrão cheio de informações bem úteis para quem quer entender não só Ryōgen e o Tendai, mas um panorama do estado do budismo no Japão do século X e sua relação com a corte. Também dá um bom ponto de referência em relação aos períodos mais famosos que vieram antes (as biografias de Kūkai e Saichō, lá para o século VIII) e depois (a entrada no período Kamkura e a revolução das escolas budistas no século XIII). Recomendo para seja lá quem tiver esse mesmo interesse.


  1. Desculpem, eu adoro essa expressão, mas é menos questão de se você me conhece e mais de se viu meu tuíte a respeito.

  2. 延暦寺, "Templo de Enryaku", que é o nome da era japonesa em que foi fundado: de 782 a 806.

  3. E quase mais 200 de conteúdo pós-textual, veja bem. Tem oito apêndices e notas pra caramba.

  4. Com o próprio livro em questão aqui indica: do século IX ao XI, a instituição do Tendai ficou apinhada de nobres no decorrer dos anos. O próprio Ryōgen era de origem camponesa, mas seu protegido e sucessor, Jinzen, era um dos filhos de seu principal patrocinador na corte, Fujiwara no Morosuke.

  5. O que leva a uma situação meio engraçada em que, após a morte de seu patrono da corte, antes mesmo de ser zasu, Ryōgen sugere e convence os nobres a realizarem um grande evento de debates para ganhar renome e se firmar melhor como um exemplo de erudição. São os "Debates de Ōwa", e surpreendentemente a ideia funciona.

#budismo #leituras #tendai