Caramba, não é que publiquei um livro mesmo?

Na tarde de terça-feira, subi à portaria para buscar uma caixa de livros. Eram 30 exemplares, não que desse para ver por fora: era um pacote até que miúdo, leve, tranquilo de carregar ladeira abaixo. Eu havia recebido no dia anterior o e-mail avisando do despacho, mas na hora estava com a cabeça tão ocupada com os afazeres da rotina que nem me demorei demais no assunto. Só depois de chegar em casa, desempacotar o primeiro exemplar e folhear pelos textos familiares foi que caiu a ficha: caramba, aconteceu mesmo, né?

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E ficou bonito à beça, diz aí

Em certo sentido, foi tão rápido que mal percebi rolando. Em dezembro inscrevi minha coleção de poemas em uma chamada para publicação na Bienal, no fim de janeiro recebi o aceite, em fevereiro rolou a campanha de financiamento, e em abril os exemplares já estão aqui em casa. Sou cria do mercado editorial, bem ou mal, e já estava crente, crente de que se o livro saísse na Bienal já era lucro. Mas foi um processo ligeiro, sem grandes preocupações, que seguiu no plano de fundo das preocupações mais imediatas do cotidiano, um motorzinho roncando nos bastidores da vida.

E voilà! Ornitologia especulativa e outros ritos, com o perdão do título espalhafatoso. Meu primeiro livro oficialmente publicado. Caramba.

É em parte surreal, em parte irônico. Sempre me considerei prosador em primeiro lugar: a maioria dos meus esforços literários desde a adolescência ocorreu na direção de um romance, curto ou leve, realista ou mágico, lúdico ou sóbrio. É engraçado pensar que estou há já uns três anos tentando escrever meu romance principal, a obra que me escorre dos dedos de mês em mês e contiua na labuta (e deve entrar em sua quarta versão em breve), mas é com a poesia que tenho a experiência de pela primeira vez pegar um livro e chamá-lo de meu. Não muda o orgulho: olha só que beleza.

Em retrospecto, verdade seja dita, com a poesia eu flertava só ocasionalmente, e mais nos últimos três anos, quando me despertou um desejo de ler e escrever poemas com mais frequência. O que mais me impedia de tentar algo assim era uma falta de confiança, mas ainda me lembro do marido me presenteando com um bloquinho de notas depois de uma conversa, para eu ter como escrever um poema onde quer que fosse, sem grande empecilho. Acho que foi isso mesmo que me levou a compor com mais frequência ou afinco, sem grandes pretensões, de modo que ao fim do ano passado eu finalmente tivesse o que mandar para uma editora quando as chamadas porventura abrissem. O famoso vai que.

E abriram, e foi. Olha só. Nasceu. E auspicioso demais que tenha sido pela editora Urutau, a ave-fantasma, a mãe-da-lua. Os amigos sabem que o urutau-grande é a minha ave favorita e representa muito bem o tom que eu queria alcançar com os meus poemas, no limiar um tanto sinistro entre as ruídos da noite e o canto dos pássaros.

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Por isso que ele está inclusive no meu poema-convite à leitura

Bem, bem — não é um projeto enorme, mas preciso dizer que ficou bem a minha cara: meu misto de teofanias e passarinhadas, que são os assuntos que sempre me perseguem. O trabalho da editora também ficou um primor: um livrinho que esbanja elegância em sua miudeza. Não tenho nem roupa para segurar o livro direito.

Agora, a sério: pude folhear os poemas, ler um ou outro, mas não ler nada com atenção demais, porque agora que estão no papel e indissolúveis parece que se tornaram concretos até demais: não tenho mais como trocar um verso de lugar ou ajustar um detalhe se me ocorrer, como foi quando os reli de novo e de novo na tela do computador. E são poemas meio esvoaçantes por natureza... Não, não: acho que vou deixá-los em paz por um bom momento, até o tempo e a distância fazerem aquele trabalho inevitável. Que fiquem para vocês, se o aceitarem. Só cuidado: tem uma foto enorme minha nas primeiras páginas, cobrindo a folha toda, então não levem um susto, como levei na primeira vez que vi: nesse mundo os tímidos não têm vez mesmo.

E o que me resta é autografar umas dezenas de exemplares e mandar o grosso de volta para a editora, que deve encaminhar os devidos exemplares para os compradores. Quem comprou a versão no financiamento vai ter que me desculpar por estar escrevendo aqui em vez de trabalhando nisso agora. Juro que vou tentar aprontar isso tudo para amanhã, antes que o feriadão da semana que vem devore os dias. E muito obrigado a todo mundo que participou da campanha: quem me conhece sabe que eu já não gosto de aparecer e menos ainda de pedir alguma coisa, então apesar dos apesares esse deve ter sido o momento mais aterrador dessa breve jornada. Tive que fazer um vídeo para o Instagram. Cruzes. Graças a Deus eu só quase cursei Publicidade e Propaganda.

E olha só que, como disse lá no começo, a chamada era para lançamento na Bienal. Então em algum momento do segundo semestre eu devo estar zanzando por um estande em São Paulo, perguntando se alguém se interessa em ler um poeminha no sigilo. A gente se vê lá, eu acho.........?